Cena 7O jardim das almas

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Cena 7 de 11

O jardim das almas

Em cenaPerséfone, Antigo herói, Alma 1, Antigo tirano, Alma 2, Hades, Antiga mãe

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PERSÉFONE vagueia pelo submundo e chega a um jardim de almas.

Perséfone

(à parte) Este lugar... é diferente. Não é como o resto do submundo. Não há tristeza aqui. Nem desespero.

Aproxima-se da alma de um ANTIGO HERÓI, de porte nobre, sentado humildemente, olhando para dentro de uma tigela de sementes. Ao lado dele estão outras ALMAS.

Antigo herói

(a outra alma) Cantavam meu nome em todos os salões, esculpiam meus feitos na pedra, ofereciam sacrifícios em minha honra. Eu achava que a glória era o mais alto propósito da vida.

Alma 1

E agora?

Antigo herói

Construíram uma estátua de ouro com os meus feitos e adoraram aquilo em vez de mim. Quanto mais alto cantavam os louvores do herói, mais invisível ficava o homem. Fui enterrado vivo sob o monumento à minha própria grandeza.

Ele mete a mão na tigela e retira uma semente.

Antigo herói

Aqui — um simples colhedor de frutos silvestres, que vive num vale remoto: é essa a vida que escolho. Desconhecido, não cantado, não lembrado. Serei amado pela minha família e, talvez no anonimato, despido de toda aquela glória emprestada, eu consiga ser quem de fato sou.

Sai o ANTIGO HERÓI. PERSÉFONE segue para outra área.

Antigo tirano

Olha aqui no lago! Estás vendo? Um reino maduro para a conquista, vizinhos fracos, vastos exércitos sob meu comando! Eu poderia unir todas as terras conhecidas sob um só governo! Vou agarrá-lo antes que outro o faça...

O ANTIGO TIRANO estende a mão para a tigela com ansiedade.

Alma 2

Mas a tua última vida não foi a de um governante poderoso?

Antigo tirano

Não fui ousado o bastante! As oportunidades que desperdicei! Desta vez serei mais forte, mais decidido. Não hesitarei em eliminar toda oposição. As pessoas precisam de mão firme para guiá-las.

O ANTIGO TIRANO toma uma semente, levanta-se e sai.

Perséfone

O tirano... ele só viu o que queria ver.

Alma 2

Escolheu a mesma vida que já o destruiu antes.

HADES surge silenciosamente por trás.

Hades

Uma vida até pior do que a anterior. Assim que vislumbrou a possibilidade de poder, sua escolha estava feita. Na ganância e na pressa, não olhou até o fim daquela vida para ver como será traído pelos próprios filhos e assassinado.

Perséfone

O que acontecerá com o antigo tirano quando essa nova vida terminar tragicamente?

Hades

Ele voltará para cá e receberá nova chance. Mas, já que nada aprendeu de sua primeira vida como tirano, por que escolheria diferente numa terceira?

Perséfone

Então a cada ciclo ele afunda mais fundo no mesmo padrão trágico?

Hades

Exatamente. E não por castigo nosso, mas por sua própria natureza. A cada vez que deixa de aprender, o padrão se grava mais fundo. A alma se torna aquilo que escolhe repetidamente ser.

HADES aponta para outra área.

Hades

Vem. Vamos observar outra escolha sendo feita.

Antiga mãe

Amei meus filhos com tanta ferocidade que não pude deixá-los cometer os próprios erros. Protegi-os de toda dificuldade, resolvi todos os problemas, blindei-os de toda consequência.

Perséfone

Um amor que protege... certamente isso não pode estar errado?

Antiga mãe

Mas o que meus filhos aprenderam? Tornaram-se adultos incapazes de enfrentar dificuldade, que ruíam ao primeiro desafio de verdade. Meu amor os fez fracos porque confundi proteção com preparação. Na próxima vida, preciso aprender a amar de mãos abertas.

A ANTIGA MÃE olha para dentro da tigela.

Antiga mãe

Aqui — uma vida de mulher pobre numa terra dura. Conhecerei a privação, perderei os que amo, aprenderei que amar às vezes significa entregar.

Estende a mão para a tigela, escolhe uma semente, levanta-se e parte.

Perséfone

Ela vê a dor que a espera, e ainda assim a escolhe.

Hades

Porque entende que as lições mais profundas só podem ser aprendidas através da dificuldade. Ao contrário do tirano, ela olha até o fim e aceita a jornada inteira.

Perséfone

Este lugar... não é castigo. É... oportunidade.

Hades

A morte é o grande acerto de contas — não o nosso julgamento, mas o ajuste de contas da própria alma com o que aprendeu. Cada vida mortal se fecha como um rolo de pergaminho, e aqui seus atos e escolhas são pesados não em nossas balanças, mas no fiel da compreensão da própria alma. Os que extraíram sabedoria do próprio sofrimento descobrem que essa sabedoria abre o caminho para reinos mais altos. Mas os que nada aprenderam — que agarraram o poder, fugiram da verdade, ou amaram de punhos fechados — descobrem que sua ignorância os prende a repetir justamente os padrões que já os destruíram. Não punimos nem premiamos: apenas seguramos o espelho no qual cada alma contempla o que se tornou.

PERSÉFONE caminha até uma das romãzeiras.

Perséfone

As romãs daqui... não são como as frutas da terra.

Hades

Não. São o fruto da compreensão. Do compromisso com ambos os reinos.

Perséfone

Se eu comer desta árvore...

Hades

Ficarias presa a este lugar.

Perséfone

(para si mesma) Eu me tornaria uma ponte entre mundos...

Hades

A escolha é só tua, Perséfone. Eu só a quereria comida por teu próprio consentimento. Ambos os mundos precisam de alguém que tenha caminhado na escuridão e escolhido voltar à luz. Que saiba que a morte serve à vida, e que a vida precisa encarar a morte.

Perséfone

Quando eu estiver pronta... escolherei.

Saem todos.