Cena 8 de 11
Os caçadores relatam a Celeu
Em cenaCeleu, Theron, Lyra, Colhedor 1, Colhedor 2, Metanira, Deméter, Nikias
Voltar ao índiceO salão principal da casa do CHEFE CELEU. DEMÉTER (como DOSO) está sentada num banco baixo, a um canto, embalando docemente o bebê DEMOFOONTE. METANIRA trabalha em silêncio no tear, ali perto. CELEU está sentado em sua cadeira de chefe. Entram THERON, LYRA e NIKIAS, seguidos de vários outros COLHEDORES, todos com ar preocupado.
Celeu
Theron, velho amigo. O que te traz ao meu salão com semblante tão grave?
Theron
Meu senhor Celeu, viemos buscar tua sabedoria numa questão que... que confunde todo o nosso entendimento.
Lyra
As terras selvagens, meu senhor. Estão... falhando.
Celeu
Falhando? Fala claramente.
Theron
Os terrenos de colheita estão morrendo, chefe Celeu. Tudo de que dependemos por gerações está murchando. Por quarenta e sete estações colhi dos mesmos bosques, dos mesmos prados. Conheço cada arbusto de frutinhas, cada nogueira, cada moita de grão selvagem. Nunca vi nada assim.
Celeu
O que exatamente estás vendo?
Colhedor 1
A cevada selvagem de pé, marrom e vazia, meu senhor. Nenhum grão nas espigas.
Colhedor 2
Os carvalhos deixam cair as bolotas antes de encher. Só cascas ocas.
Lyra
Até as ervas de primavera que crescem à sombra — murcham como se queimadas.
Theron
E não são só as plantas. Os cervos sumiram de suas trilhas de sempre. Os pássaros que costumam se juntar nas gramíneas de semente... foram-se.
Celeu
Temos sido constantes em nossas oferendas? Ofendemos os espíritos da natureza de algum modo?
Theron
Foi o que pensamos a princípio, meu senhor. Cumprimos os rituais tradicionais. A Dança da Abundância que Retorna, o Chamado das Quatro Direções...
Lyra
Oferecemos nossas melhores reservas aos espíritos dos grãos selvagens. E chamamos... chamamos especificamente pela própria grande Deméter.
Theron
Nossas únicas reservas. Queimamos todas em honra da deusa do grão.
Lyra
Fizemos a Dança do Retorno de Deméter, o Grande Chamado à deusa nas quatro direções. Confessamos a ela nossas faltas, imploramos sua clemência...
Theron
Chamamos seu nome com o coração puro, meu senhor. “Grande Deméter! Deusa de cabelos dourados, do grão! Ouve nossa prece!”
Celeu
E a deusa... não deu sinal?
Colhedor 1
Nada, meu senhor. A deusa do grão permanece em silêncio.
Theron
Se é que muda, piora a cada dia. Como se a própria Deméter nos tivesse virado as costas.
Metanira
Poderia ser uma doença na própria terra?
Theron
Os riachos ainda correm limpos, minha senhora. O solo parece saudável. É como se... como se a força que faz as coisas crescerem simplesmente... se tivesse retirado.
Colhedor 2
Passaram mercadores por aqui, meu senhor. Falam da mesma praga em terras distantes.
Lyra
Um comerciante dos vales do leste disse que seu povo enfrenta o mesmo vazio. Seus olivais não dão fruto, suas vinhas bravas só dão folha.
Colhedor 1
Outro viajante falou de campos que sempre foram densos de trigo selvagem e hoje estão nus como chão de inverno.
Theron
Meu senhor, temo que estejamos presenciando algo de que nossos ancestrais só falavam aos sussurros. A Grande Murchidão.
Celeu
A Grande Murchidão... isso é lenda, certamente.
Theron
Quando a própria terra guarda luto, diziam eles. Quando um pesar divino torna o mundo estéril. Quando até a grande Deméter retira suas bênçãos dos mortais.
Metanira
Mas por que a deusa do grão nos abandonaria? O que fizemos para irritar tanto Deméter?
Celeu
(voltando-se para DEMÉTER) Doso, viveste muito e viajaste longe. Vieste de Creta, disseste?
Deméter
Sim, meu senhor.
Celeu
Falam dessa Grande Murchidão em tua terra natal? De um fracasso tão completo da abundância selvagem?
Deméter
Eu... em Creta, a terra é... diferente.
Theron
(inclinando-se, ávido) Diferente como, boa senhora? Deméter abençoa Creta com mais fidelidade que as nossas terras?
Deméter
A... a deusa... o favor dela em Creta é...
Metanira
Falas de modo estranho, Doso. Sabes alguma coisa de assuntos divinos?
Celeu
Certamente em tuas viagens ouviste histórias sobre os humores da grande deusa? Se ela retirou seus dons também de outras terras?
Deméter
Ouvi... rumores. Sussurros nas estradas de comércio.
Metanira
Que tipo de sussurros?
Deméter
Que... que a deusa está de luto. Que seu pesar se espalha como uma sombra por muitas terras.
Celeu
Luto? Por quê?
Deméter
Dizem... que sua filha lhe foi roubada.
Theron
Sua filha? Mas a deusa Deméter não tem—
Deméter
Perséfone. O nome dela é Perséfone.
Metanira
Como sabes o nome da filha da deusa?
Deméter
Eu... os mercadores falaram de... as pessoas sabem... todo mundo sabe...
Celeu
Doso, teu conhecimento de assuntos divinos parece... preciso demais para uma escrava desterrada de Creta. Em todas as tuas viagens, em todos os teus anos... viste alguma coisa parecida com o que hoje assola as nossas terras?
Deméter
Vi.
Celeu
Onde?
Deméter
Em toda parte por onde passo.
Theron
Em toda parte? Então isto é mesmo ira divina espalhada pelo mundo?
Deméter
Não... não é ira. É pesar.
Metanira
Qual a diferença?
Deméter
A ira queima tudo até virar cinza e segue adiante. O pesar... o pesar se assenta sobre a terra como um inverno que não acaba. Ele retém não por ódio, mas por um coração partido demais para dar.
Metanira
Falas como quem conhece esse pesar pessoalmente.
Deméter
Toda mãe o conhece. O terror de que algo precioso será tomado. A agonia quando de fato acontece.
Celeu
Tua filha... aquela que disseste ter perdido...
Deméter
Roubada. Como Perséfone.
Theron
Pobre mulher. E não encontraste nenhum rastro dela?
Deméter
Procurei em toda parte. Chamei seu nome até a garganta em carne viva. Interroguei todos que encontrei. Mas é como se tivesse desaparecido dentro da própria terra.
Theron
(aos outros) Estão vendo? Ela entende o luto da deusa porque o compartilha.
Celeu
Talvez seja por isso que foste trazida até nós, Doso. Não apenas para cuidar de nosso filho, mas para nos ajudar a entender... o que move o coração de uma mãe enlutada.
Deméter
Sou apenas uma ama, meu senhor. Nada sei de deusas.
Celeu
E no entanto aconselhas não como quem ouviu rumores, mas como quem sentiu por dentro essa mesma... retração.
Deméter
Toda mãe que perdeu um filho... se retira do mundo até que esse filho volte.
Lyra
Mas, Doso... se toda mãe deixasse de cuidar de todas as outras crianças quando perdesse a sua, quem cuidaria dos bebês? Quem cuidaria dos pequenos?
Deméter
Às vezes... às vezes descobrimos que não conseguimos evitar. Tentamos amar de novo, apesar do risco. Apesar de saber que nos importar nos torna... vulneráveis.
Celeu
Acreditas mesmo que esta murchidão vem do coração partido de uma mãe?
Deméter
Acredito que, quando alguém que amas mais que a própria vida te é arrancado... quando os que poderiam ajudar escolhem permanecer calados... então sim. O coração pode ficar tão desolado que até o espírito mais generoso... se recolhe.
Theron
Mas certamente a deusa deve saber que os mortais sofrem por seu silêncio?
Deméter
Achas que ela não vê? Achas que ela não sabe que crianças choram de fome, que famílias enfrentam a inanição? Imaginas que ela dorme em paz enquanto o mundo murcha? Mas o que quererias que ela fizesse? Fingisse que o roubo nunca aconteceu? Agisse como se sua maior alegria não lhe tivesse sido arrancada do peito? Sorrisse e espalhasse abundância enquanto sua filha continua perdida na escuridão?
Theron
A deusa poderia... poderia confiar na justiça divina. Acreditar que com o tempo—
Deméter
Tempo? Tempo? Quanto tempo deve uma mãe esperar enquanto a filha sofre tormentos que ela desconhece?
Celeu
Doso... há quanto tempo tua filha está desaparecida?
Deméter
Doze dias. Doze dias desde que a ouvi gritar... e não pude alcançá-la.
Metanira
Doze dias... e a murchidão começou...
Theron
Há doze dias.
Celeu
Quem és tu, Doso?
Deméter
Alguém que entende de política divina melhor que a maioria dos mortais.
Celeu
O que queres dizer?
Deméter
Vocês têm rezado ao deus errado.
Lyra
O quê? Mas Deméter é a deusa da colheita—
Deméter
E, se a filha de Deméter foi de fato roubada, como dizem os rumores, quem deu permissão para tal roubo?
Theron
Eu... eu não entendo.
Deméter
Nenhum deus ousaria raptar a filha de outro deus sem o consentimento da autoridade suprema.
Celeu
Zeus!
Deméter
O próprio rei dos deuses. Se Perséfone foi levada ao submundo, foi porque Zeus permitiu. Talvez até tenha ordenado.
Theron
Mas... mas isso significaria...
Deméter
Que as vossas preces a Deméter são inúteis. Ela não pode restaurar a abundância enquanto sua filha permanecer perdida. E não pode recuperar a filha sem a permissão de Zeus para desfazer o que o próprio Zeus autorizou.
Lyra
Então deveríamos rezar a Zeus?
Deméter
Se quereis resultados em vez de ritual vazio, sim.
Colhedor 1
Mas Zeus é tão... distante. Tão terrível. Como se aproximam os mortais do rei dos deuses?
Deméter
Do mesmo modo como vos aproximastes de Deméter — com oferendas, com rituais, com o devido respeito. Mas compreendei o que estais pedindo. Pedis a Zeus que reverta a própria decisão, que admita que o sofrimento dos mortais pesa mais do que qualquer propósito divino a que o rapto tenha servido.
Celeu
E achas... achas que ele possa escutar?
Deméter
Zeus responde à pressão. Quando as consequências de suas decisões se tornam... inconvenientes... às vezes ele reconsidera.
Colhedor 2
Que tipo de pressão poderiam os mortais exercer sobre o rei dos deuses?
Deméter
A que já estais exercendo. A fome. O colapso da ordem natural. O fracasso dos sacrifícios e das oferendas, porque não resta nada a sacrificar.
Celeu
Falas como se já tivesses presenciado tais negociações divinas.
Deméter
Eu... observei como os deuses respondem quando suas decisões criam um caos que os desabona.
Metanira
Doso, este é um conselho perigoso. Desafiar o próprio Zeus...
Deméter
Não tendes nada a perder. Do jeito que está, morreremos de fome de todo modo. Falo com a convicção de quem viu inocentes demais sofrerem pelo orgulho dos deuses.
Lyra
Então devemos... abandonar Deméter por completo? Rezar apenas a Zeus?
Deméter
Não. Rezai a ambos. Mas entendei a hierarquia. Pedi a Zeus que devolva a filha à mãe. Pedi a Deméter que restaure a abundância assim que sua filha voltar. Deixai claro que compreendeis a verdadeira origem do problema.
Theron
Como podemos nós, mortais, saber se Zeus sequer ouvirá tais preces?
Deméter
Quando o soberano dos deuses vir que o reino de seu irmão transborda de mortos — quando os mortais morrerem mais depressa do que nascem porque a terra nada rende — quando a própria ordem da existência ameaçar ruir... ele ouvirá.
Nikias
Soas quase... esperançosa.
Deméter
Estou esperançosa. Pela primeira vez em doze dias, acredito que possa haver um caminho adiante.
Celeu
Então seguiremos teu conselho, Doso. Theron, reunamos nossos homens e mulheres capazes e ergamos um santuário ao todo-poderoso Zeus.
Metanira
E nesse meio-tempo?
Deméter
(olhando para DEMOFOONTE) Nesse meio-tempo, protegemos o que pudermos. Amamos o que temos. E torcemos para que os deuses aprendam a pôr a misericórdia antes do orgulho.
Sai DEMÉTER com DEMOFOONTE.
Metanira
Ela sabe muito de política divina, para uma escrava desterrada.
Lyra
Fala das decisões de Zeus como se tivesse presenciado as consequências pessoalmente.
Theron
Seja lá quem for de verdade, ela nos deu algo concreto para fazer. É mais do que tínhamos antes.
Celeu
De fato. Podemos descobrir quem ela é depois. Amanhã começamos a erguer um edifício sagrado a Zeus, rei dos deuses e pai da justiça, pedindo-lhe que corrija uma injustiça antiga.
Saem todos.