Cena 2Perséfone no submundo

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Cena 2 de 11

Perséfone no submundo

Em cenaPerséfone, Hades, Althaia, Alma 1, Alma 2

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O submundo. PERSÉFONE está sentada sozinha, ainda com o vestido de colher flores, agora rasgado e manchado. Segura na mão um narciso murcho. Ao seu redor, as ALMAS movem-se como correntes suaves de ar.

Perséfone

(à flor murcha) Eras tão bela esta manhã. Perfeita, branca e viva. Nós duas éramos.

Ela deixa a flor cair. HADES aproxima-se por trás.

Hades

Não tocaste na comida que te trouxe.

Perséfone

Não quero nada deste lugar. Nada de ti.

Hades

Precisas comer, Perséfone. Até os imortais precisam de sustento.

Perséfone

Não me chames assim! Esse nome... esse nome maldito. Sou Core! Era Core antes de me roubares, e faço questão de continuar sendo Core.

Hades

Já não podes ser Core.

Perséfone

O ar estava morno. A grama, macia sob meus pés. Eu ria... colhia crocos, íris e jacintos... E então a vi. A mais bela das flores. Um narciso tão perfeito que parecia brilhar com luz própria. Parecia tão misterioso. Estendi a mão para ele, e a terra... se abriu como uma ferida.

Hades

Então tens tua parte em teres chegado aqui. Poderias ter deixado o narciso em paz.

Perséfone

Como eu poderia saber que era uma armadilha?

Hades

Por que estender a mão ao mistério, se alguém está contente com as coisas como estão?

Perséfone

Eu estava contente. Mas a flor era atraente.

Hades

Pelo visto continuar sendo Core não bastava. Colheste o narciso. Uniste-te a mim. Portanto não podes jamais voltar a ser Core.

Perséfone

Não te quero! Não quero estar aqui! Quero ser Core de novo! Quero minha mãe!

CORE desaba em prantos. De entre as ALMAS, ALTHAIA, espírito de uma antiga rainha, aproxima-se.

Althaia

Criança... jovem deusa... não te desesperes tanto.

Perséfone

Tu... tu sabes falar?

Althaia

Não somos meros ecos, filha de Deméter. Fomos mortais um dia, com vozes e histórias próprias. Eu era Althaia, mãe de heróis, rainha de Cálidon.

Perséfone

Então sabes o que é perder tudo, ser arrancada de quem se ama.

Althaia

Sei o que é morrer, sim. Deixar para trás tudo o que me era caro. Meus filhos, meu marido, meu reino, o calor do sol no rosto.

Perséfone

E ainda assim pareces... em paz.

Althaia

Estou. Mas levou tempo.

Perséfone

Que bem pode o tempo, por si só, fazer?

Althaia

Com o tempo, hás de entender.

Perséfone

Entender o quê? Que a morte é natural? Que a separação é inevitável? Palavras bonitas para mascarar verdades feias.

Althaia

Diz-me, criança. Amavas as flores que crescem no reino de cima?

Perséfone

Eu as adorava. Colhia buquês todo dia. Dava-os à minha mãe.

Althaia

E de que achas que nascem as tuas flores?

Perséfone

Eu... Da chuva. Do sol.

Althaia

(apanhando a flor murcha que PERSÉFONE deixou cair) Por que a flor murcha tão depressa depois de colhida? Murcha porque foi separada do mundo subterrâneo.

Perséfone

Torces tudo! Cobres este lugar escuro e lúgubre com uma máscara de beleza!

Hades

Não é beleza. É metamorfose, Perséfone.

Perséfone

Não ouvirei tuas palavras adocicadas! (a HADES) Roubaste-me, e agora mandas tuas sombras me convencerem de que foi para o meu próprio bem?

Hades

Tens razão em estar com raiva.

Perséfone

O quê?

Hades

Foste levada sem consentimento. Tua mãe sofre. A vida que conhecias terminou. Não são coisas pequenas.

Perséfone

Então... por que me fizeste isto?

Hades

Aprenderás com o tempo.

Perséfone

Quanto tempo?!

Hades

Isso está em tuas mãos. Quanto mais resistires, mais arrastarás a lição.

Perséfone

Então resistirei para sempre. Deusa ainda sou. A eternidade está à minha disposição. Despojada de tudo o mais, ao menos esse privilégio me resta: jamais aceitar este lugar. Se preciso for, serei para sempre tua prisioneira; nem Core, nem rainha por vontade própria.

Hades

Está de fato em tuas mãos: permanecer para sempre de luto pela donzela que já não és, ou descobrir o sentido e o mistério daquilo que podes vir a ser.

Sai HADES.

Althaia

Verás aqui no submundo todos os modos de lidar com a perda. De almas em amargo ressentimento a almas em aceitação serena. E aprenderás. Eu poderia ter passado a eternidade enfurecida contra minha morte, amaldiçoando os deuses, chorando o que perdi. Muitas almas fazem isso. Vagam por estes reinos como tempestades, sem nunca encontrar paz.

Perséfone

E tu escolheste diferente?

Althaia

Passei a ver o que minha morte tornou possível para os que amei. Meu filho Meleagro aprendeu coragem em parte porque sabia que eu já não estava lá para protegê-lo. Meu reino encontrou nova força porque não podia mais se apoiar na velha rainha.

Perséfone

Eu nunca quis ser rainha de coisa nenhuma.

Althaia

Nem eu. Quando meu marido me levou pela primeira vez a Cálidon, eu estava apavorada. Tudo era estranho — os costumes, as pessoas, até o cheiro do ar.

Perséfone

Mas isso foi diferente. Aprendeste a amar aquilo.

Althaia

Eu disse que aprendi a amar?

Perséfone

Não aprendeste?

Althaia

Aprendi a servir, minha querida criança. A encontrar meu propósito ali dentro. O amor... o amor veio depois. Muito depois.

Outras ALMAS aproximam-se, atraídas pela conversa.

Perséfone

(às ALMAS) Todos vós... todos fizeram as pazes com estar aqui?

Alma 1

Nem todos, jovem rainha. Alguns ainda se enfurecem. Alguns choram sem fim. Alguns esqueceram que um dia estiveram vivos.

Alma 2

Mas nós, que falamos contigo... sim. Encontramos nosso repouso.

Perséfone

Eu só quero ir para casa.

Althaia

Estás em casa. És rainha do submundo. Vem, criança. Deixa-me te mostrar uma coisa.

Perséfone

O quê?

Althaia

Pensas que este reino guarda apenas morte e sombras. Mas há aqui lugares de outra beleza. A beleza das coisas que se preparam para florescer no escuro. Das sementes que se preparam para germinar e dos frutos que se preparam para amadurecer. De um crescimento que vem de dentro.

Saem todos.