Cena 3 de 11
A colheita que falha
Em cenaTheron, Lyra, Nikias
Voltar ao índiceAs terras selvagens em torno de Elêusis. THERON, colhedor idoso, ajoelha-se junto a um trecho de cevada selvagem murcha, deixando espigas vazias esfarelarem entre os dedos. LYRA, uma jovem, aproxima-se carregando cestos trançados. NIKIAS, um jovem caçador, vem atrás.
Theron
Quarenta e sete estações colhendo destas terras. Quarenta e sete vezes vi os grãos selvagens amadurecerem, as nogueiras carregadas de frutos, as trilhas de caça fundas de tanto uso. Nunca vi nada assim.
Lyra
A fonte ao menos ainda corre limpa. O que quer que tenha levado a abundância não tocou na água.
Nikias
Ainda.
Lyra
Não convides a má sorte, Nikias.
Theron
Olhem para isto. Olhem para tudo. O trigo selvagem de pé, marrom e vazio, como os ossos de um velho. As bolotas caem antes de encher — cascas ocas chacoalhando nas cúpulas. Até as oliveiras bravas mirram nos galhos.
Lyra
Minha avó dizia que a terra às vezes retém seus dons para nos ensinar gratidão.
Nikias
Isto não vai nos ensinar gratidão, Lyra. Vai nos ensinar fome.
Theron
Cuidado com a língua, rapaz. Os deuses ouvem tudo.
Nikias
Tens certeza de que ouvem tudo? Talvez já não estejam escutando.
Lyra
Falas perigosamente, Nikias.
Nikias
Falo com verdade. Em que nossas preces mudaram em relação às colheitas anteriores? E se as preces não mudaram, mas as colheitas sim, isso prova que as colheitas independem das preces.
Theron
Os deuses agem de modos misteriosos.
Lyra
Talvez tenhamos feito alguma coisa? Ofendido a eles de algum modo? Falhado em nossos deveres?
Nikias
Que deveres poderíamos ter falhado? Tomamos apenas o que precisávamos, agradecemos por cada dádiva, honramos as estações como nossos ancestrais ensinaram—
Theron
Então o que propões, jovem filósofo? O que farias de nós?
Nikias
Trabalhar mais. Procurar mais longe. Se os deuses não proveem, provemos nós mesmos.
Lyra
Procurar onde? Já vasculhamos cada bosque a um dia de caminhada.
Nikias
Então caminhamos dois dias. Três. Deve haver terras onde as árvores ainda deem frutos, onde a caça não tenha fugido.
Theron
Pensas pequeno demais, rapaz. Se esta esterilidade afetasse só as nossas terras, por que não vimos mercadores chegando com sacos cheios para se aproveitar da nossa falta?
Lyra
Achas que é... em toda parte?
Theron
Acho que talvez estejamos fazendo as perguntas erradas.
Lyra
Como assim?
Theron
Meu avô me contava histórias. Dos tempos antigos, quando nosso povo aprendeu a colher destas terras. Histórias de épocas em que a própria terra guardava luto.
Nikias
Como pode a terra guardar luto?
Theron
Olha à tua volta, criança. Se isto não é luto, o que é?
Nikias
Histórias e conversa de comadre não enchem barriga. Precisamos de soluções práticas.
Lyra
E se não houver nenhuma? E se isto estiver além do nosso poder de mudar?
Nikias
Então precisamos aumentar o nosso poder.
Theron
Algumas coisas, rapaz, são maiores que a esperteza humana.
Nikias
Então não fazemos nada? Simplesmente... nos rendemos? Vemos nossas famílias passarem fome enquanto esperamos por uma misericórdia divina que talvez nunca venha?
Theron
Eu não disse para não fazer nada. Disse que talvez estejamos pensando nisto do modo errado.
Lyra
Como assim?
Theron
E se o problema não forem os terrenos de caça? Se não forem os bosques, nem o tempo, nem a nossa perícia em colher?
Nikias
Então o quê?
Theron
E se formos nós? E se algo em nós tiver esquecido como... receber aquilo que a terra quer dar?
Lyra
Minha avó disse uma coisa, uma vez... sobre escutar a voz da terra.
NIKIAS se abaixa e encosta o ouvido no chão.
Nikias
Ei, terra? Está tudo bem? Podes, por favor, te recompor e nos trazer alguma safra? Estamos com fome...
Lyra
Criança tola!
Theron
Os anciãos dizem... que às vezes uma grande perda lá em cima faz a terra aqui embaixo reter seus dons. E que o único remédio é... compreensão. Aceitação.
Nikias
Aceitação da fome? Boa ideia. Voltemos ao povoado e digamos a todos: “Desculpem, gente. Sem safra nesta estação. Em vez disso, vamos trabalhar juntos na aceitação da nossa fome.”
Theron
Aceitação do mistério, rapaz. Aceitação de que algumas coisas precisam se desdobrar no seu próprio tempo.
Lyra
Há outra coisa, não há? Algo que não nos contaste.
Theron
Têm passado... viajantes. Nas trilhas de comércio, nas encruzilhadas. Gente de passagem que fala do mesmo vazio em suas terras.
Lyra
(a NIKIAS) Viste? Está se espalhando. Mesmo que viajemos mais longe, não acharemos mais comida.
Theron
Os viajantes também falam de... sinais. Coisas contra a natureza. Riachos correndo ao contrário. Feras silenciosas em suas tocas. O tipo de presságio que fala de um pesar divino.
Lyra
Pesar por quê?
Theron
É isso que precisamos entender. Devíamos ir ao povoado. Falar com o chefe Celeu. Ver que sabedoria ele oferece.
Nikias
Celeu vai nos mandar rezar com mais força e oferecer mais sacrifícios aos espíritos da natureza.
Lyra
E se ele disser isso, é o que faremos.
Saem todos.