Cena 1 de 11
Chegada a Elêusis
Em cenaCalítoe, Demo, Clisídice, Calídice, Deméter
Voltar ao índiceCampo próximo a Elêusis. O povo se reúne. Os músicos tocam. O POVO DE ELÊUSIS começa a dançar com abandono selvagem, de braços dados, rodopiando, rindo, carregando cestas transbordantes de comida. DEMÉTER está sentada à parte, à frente do palco, observando a celebração dos moradores. A dança vai se acalmando. Quase todos saem. Restam quatro moças — as FILHAS DO CHEFE CELEU.
Calítoe
Viste o Aléxios tentando acompanhar aquela última espiral? Achei que fosse rolar direto dentro da fonte!
As FILHAS riem.
Demo
Os músicos tocaram lindamente hoje. E olhem como a terra nos abençoou! Nosso pai vai ficar contente. Nada o deixa mais feliz do que ver nossa gente se banqueteando com os dons da natureza.
Clisídice
Mas a dança da colheita pareceu diferente hoje. Mais urgente, de algum modo. Como se estivéssemos celebrando enquanto ainda é possível.
Calídice
Irmãs... olhem ali.
As FILHAS voltam a atenção para DEMÉTER.
Calítoe
Uma estrangeira, viajando sozinha. Há quanto tempo está sentada ali?
Demo
Deve ter assistido à nossa celebração da colheita inteira. E não sorriu uma vez sequer... nem se levantou para entrar na nossa dança de agradecimento.
Calídice
(a DEMÉTER) Boa senhora, estás bem? O dia está quente para alguém tão embrulhada em lã.
Deméter
Estou bem, obrigada. Apenas descanso. Vossas danças são belas. Vosso povo parece... abençoado pela felicidade.
Calítoe
Temos todos os motivos para ser felizes. Deméter provê para nós. Dançávamos de alegria pela abundância dela.
Deméter
Quem carrega o próprio pesar geme ao ver a felicidade alheia.
Demo
Falas de modo estranho, mas com dignidade. Vens talvez das grandes cidades? Tuas palavras têm o peso do estudo.
Deméter
Conheci muitos lugares. Conheci também uma perda que faz todos os lugares parecerem o mesmo.
Clisídice
Qual é o teu nome? De onde viajas?
Deméter
Sou... Doso. Vim de Creta, embora pareça que vagueei por mais tempo do que qualquer navio poderia navegar.
Calídice
Vagueaste? Procuras alguma coisa?
Deméter
Alguém. Minha filha. Ela foi... tomada de mim. Roubada para um lugar aonde não posso segui-la.
Demo
Roubada? Por saqueadores? Piratas?
Deméter
Se piratas ou saqueadores a tivessem levado, eu já a teria encontrado, e eles teriam lamentado o dia em que nasceram. Não. Vasculhei cada porto, cada fortaleza. Isto foi outra coisa. Algo além do poder mortal. Mas o quê, ou quem... não sei dizer.
Clisídice
Que terrível. Mas certamente... certamente precisas comer, descansar? Não podes procurar para sempre sem forças.
Calítoe
Devíamos falar com nosso pai. O chefe Celeu tem guerreiros que conhecem os lugares selvagens. Talvez pudessem ajudar na busca.
Deméter
Não há esperança, criança. Cheguei aqui tendo desistido de algum dia encontrá-la.
Demo
Pobre mulher. Então fica ao menos conosco. A casa de nosso pai bem poderia ter alguém sábio... alguém que entenda a perda.
Calídice
Nosso pai é o chefe Celeu, líder de nosso povo. Nossa mãe, Metanira, deu à luz há pouco um filho, o pequeno Demofoonte. Talvez... talvez encontres propósito em cuidar de uma criança outra vez? Ainda que ele não possa substituir a que perdeste?
Deméter
Uma criança...
Clisídice
Tens experiência com crianças? Sabes cuidar delas?
Deméter
Amei uma criança mais do que a própria vida. Aprendi cada canção que lhes acalma o sono, cada remédio para suas dores, cada modo de ajudá-las a crescer.
Calítoe
Os caminhos dos deuses são um mistério para nós, mortais. Ainda não sabemos por que o destino te trouxe a Elêusis. Talvez estejas aqui não para encontrar a filha perdida, mas para descobrir o que resta quando a perda já levou todo o resto.
Deméter
Falas com sabedoria, para alguém tão jovem.
Demo
Vem conosco, nobre Doso. Deixa-nos oferecer o conforto que pudermos.
Deméter
Muito gentil de vossa parte, filhas de Celeu. Aceito humildemente o gracioso convite.
Os músicos iniciam uma melodia mais suave. As FILHAS saem em direção ao povoado. Antes de segui-las, DEMÉTER se detém e olha para nós.
Deméter
Não sou Doso. Sou Deméter.
Deusa da colheita, que amadurece o trigo em ouro
e ordena à terra que renda sua abundância.
Nove dias busquei, tocha ardente em punho,
nove dias vasculhei a criação inteira,
chamando seu nome até a voz enrouquecer,
chamando meu amor e minha vida, Perséfone.
Varri cavernas de montanha e abismos do mar,
interroguei cada vento e cada sombra por seu rastro.
Perguntei a mortais e a imortais:
como pôde sumir, sem rastro nem testemunha?
Mas todos alegam completa ignorância,
ou fingem confusão enquanto escondem a verdade.
Mais perturbador é o silêncio dos deuses —
os que deveriam saber tudo recusam-se a falar.
Zeus desvia o rosto e não encara meus olhos.
Apolo fala por enigmas, nada mais.
Sabem seu destino, sabem quem roubou minha filha,
e não me dizem onde ela pode ser achada.
Se me ocultam o destino de minha filha,
ocultarei do mundo inteiro os meus dons.
Estes mortais que hoje aqui se alegram
não se alegrarão por muito tempo, eu profetizo.
Sua colheita há de minguar aos poucos,
até que a abundância desapareça por inteiro.
Talvez, através do sofrimento dos mortais,
os deuses enfim rompam o silêncio e confessem.
As filhas do chefe ofereceram ajuda —
sua clemência dada de graça, sem pedir nada.
Nenhum dever pesa mais do que retribuir
a bondade oferecida ao desespero.
Servirei em sua casa. Cuidarei de seu filho.
Mas onde quer que agora vagues,
minha filha, em qualquer reino oculta —
saibas que tua mãe jamais te esquecerá.
Hei de te descobrir, hei de te devolver
aos meus braços, minha querida Perséfone!
DEMÉTER sai, seguindo o caminho para o povoado.